O panorama logístico global passa por um momento de fortes oscilações, influenciado pelo comportamento dos fretes marítimos, gargalos operacionais na Ásia e na Europa, instabilidade na carga aérea e mudanças estruturais na infraestrutura portuária do Brasil. Este report reúne os principais destaques e tendências que devem impactar embarcadores, importadores e exportadores nas próximas semanas.
Cenário Marítimo Ásia–Brasil
As exportações brasileiras para a Ásia cresceram 21,2% em outubro, impulsionadas por China, Índia, Cingapura e Filipinas, com destaque para produtos agrícolas e minerais. Apesar da expansão, a queda recente dos fretes trouxe instabilidade na oferta de espaço, exigindo maior planejamento na antecipação das reservas.
Após cinco semanas de alta, o SCFI registrou sua primeira queda na semana 45. Os aumentos anteriores foram puxados pelos trades USEC, USWC, NEUR e MED — e não pela rota Ásia–Latam. A maior oferta de espaço e o fim dos ataques dos Houthis reforçam a tendência de recuo das tarifas, embora ainda com volatilidade.

Nos portos asiáticos, a pressão continua: hubs como Singapura operam no limite, com atrasos, pátios lotados e efeitos cascata em diferentes rotas. Grande parte dos navios segue em rerouting por questões geopolíticas e operacionais, elevando a incerteza das escalas.
No FCL Ásia, a demanda segue abaixo da oferta. Armadores chegaram a operar abaixo do ponto de equilíbrio no Q3 2025, aumentando o risco de blank sailings e de novos reajustes de frete em dezembro.
Impactos diretos para o Brasil
- Superávit segue consistente, sustentado pela demanda internacional por commodities.
- Importações da Ásia pressionam o curto prazo.
- Sobrecapacidade global mantém o frete contido, mas sujeito a oscilações rápidas.
- O SCFI voltou a cair após resistência na semana 44, refletindo fragilidade da demanda.
Cenário Marítimo Europa
O ambiente logístico europeu continua pressionado, especialmente no Norte, com congestionamentos, atrasos, greves e blank sailings.
Destaques por região:
- Norte da Europa: forte restrição de espaço, navios lotados e lead time de haulage na Alemanha chegando a 2–3 semanas. Entra em vigor o Secure Release Order, exigindo German Ports ID.
- Koper: capacidade limitada por obras ferroviárias até o fim do ano.
- França: operações estáveis, mas com espaço começando a apertar.
- Reino Unido: boa disponibilidade de caminhões; ETD real ocorre 1–2 semanas após o booking.
Sub-regiões adicionais:
- Turquia: falta crônica de contêineres 20’.
- Itália: fortes restrições para Manaus; alguns armadores com suspensões de booking.
- Portugal e Espanha: coletas funcionam normalmente, mas há falta de equipamentos. Redução de escalas em Sines afeta embarques para o Sul e Sudeste — Itapoá surge como alternativa mais eficiente.
Cenário Marítimo Américas
Estados Unidos
Com o fim do shutdown após acordo no Congresso, BIS e CBP retomaram operações normais. Os portos operam de forma estável.
Caribe e América Central
O furacão Melissa, que atingiu a Jamaica no fim de outubro, gerou ajustes temporários em Kingston, importante hub regional. As rotas estão em fase de normalização.

Cenário Aéreo Global

O mercado de carga aérea segue aquecido, com volumes globais +6% YoY, mas enfrentando pressões típicas de temporada e variações regionais.
Europa
- Tarifas em alta e espaço restrito pela Peak Season.
- Portugal é exceção, com aumento de capacidade para o Brasil.
- Tarifas europeias +1% YoY.
Ásia & Pacífico
- Tarifa em elevação e espaço reduzido devido ao e-commerce.
- APAC cresce +9% YoY; Sudeste Asiático chega a +50% YoY para os EUA.
- China registra queda de -9% YoY.
- Tarifas: APAC → EUA -15% YoY; China → Europa +6% YoY.
América Latina (CSA)
Demanda firme puxada por pharma, perecíveis e e-commerce. Espaço limitado em rotas EUA–Latam e Europa–Latam.
MESA
Excesso de capacidade pressiona tarifas: spot rates -27% YoY. Tensões no Mar Vermelho e restrições em Bangladesh agravam o cenário.
Infraestrutura Portuária Brasileira
O Brasil vive um momento de avanços estruturais importantes:
- Porto de Santos registra recorde histórico: 243.860 TEUs em outubro/2025 — maior marca da América do Sul.
- Governo reforça plano de concessões e modernização, com R$ 9 bilhões previstos até 2027.
- Paranaguá receberá R$ 1,5 bilhão para expansão, novos pátios, acesso rodoviário/ferroviário e modernização do cais.
Apesar dos progressos, ainda persistem desafios como:
- Infraestrutura deficiente em algumas regiões.
- Baixa integração multimodal.
- Entraves regulatórios que afetam eficiência operacional.

O panorama logístico global segue marcado por volatilidade, especialmente no eixo Ásia–Brasil e nas rotas europeias. No marítimo, a combinação de sobrecapacidade e gargalos portuários cria um ambiente de cautela. No aéreo, a alta sazonal e o avanço da Ásia moldam os preços e a competitividade das rotas. Já no Brasil, os recordes e investimentos reforçam a necessidade de modernização contínua.
Para minimizar impactos, embarcadores devem priorizar planejamento antecipado, monitoramento diário de mercado e diversificação de rotas e modais, garantindo maior previsibilidade em um cenário ainda instável.